Paralisia criativa

Vão já 73 dias desde a última vez que postei as minhas palavras nesta plataforma (tomando em conta que começo este texto no dia 3 de setembro), e isto não se deve unicamente à preguiça crónica de que sou vítima, mas sim em parte da incrível seca criativa que atormenta o meu ser relatador.

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Não gosto de ser classificado como “escritor”, pois, a meu ver, esse rótulo guarda-se para quem contribui para o mundo literário com os seus próprios trabalhos, eu limito-me a relatar (de maneira amadora) pequenas reflexões do dia a dia e pensamentos que me vão ocorrendo. Mas voltando ao assunto, este texto não é uma “desculpa” para justificar a minha ausência por estes lados, mas sim uma reflexão sobre algo que me tem pesado muito na consciência ultimamente: a paralisante sensação de nunca seguir em frente com um projeto ou ideia simplesmente por preguiça ou falta de ideias.

Padeço deste mal desde que comecei a entender o mundo como ele é, enquanto criança era só uma doença alheia. Por exemplo, apesar de serem de qualidade terrível e sem qualquer tipo de valor como obra, realizei, produzi, escrevi e acima de tudo criei várias “super-curta-metragens” (adiciono o “super” porque nunca passaram dos 3 minutos), para as quais nunca me faltaram temas nem ideias e das quais não sentia absolutamente nenhuma vergonha ou medo de apresentar aos meus familiares e amigos. Aliás, bastantes foram as ocasiões em que reuni ditos amigos para participar nos vídeos, sem receio de retaliação ou de acabar com um produto final cuja qualidade estaria aquém das expectativas. Aujourd’hui, tudo é diferente. Não só com projetos multimédia, mas na minha vida em geral. A ideia ocorre, é posta em ação uma ou duas vezes, e depois é abandonada por completo com base em justificações que são, no mínimo, duvidosas, e assim se repete o ciclo, os anos vão passando, e pareço não sair do mesmo sítio onde estava anteriormente.

Sei bem que não sou a única vítima deste mal, não fosse um termo conhecido o “writer’s block”, mas a questão é que o meu é constante. No entanto, estou num ponto na minha vida em que me cansei de adormecer na moleza da aceitação, porque quem se conforma com as maldades da vida nunca atinge nada. Portanto, numa busca de soluções para a minha situação, cheguei a uma possível cura:

  1. Parar, levantar o rabo da cadeira e ir passear. Não há, a meu sentir, melhor maneira de encontrar inspiração e reavivar a criatividade do que dar uma caminhada num parque, embarcar num comboio e observar quem nele se encontra (eu sei, comboios fazem sempre parte dos meus posts) ou, para quem consegue tal coisa, fazer uma viagem. Não é preciso sair do país, basta percorrer uns quilómetros para descobrir algum sítio onde nunca pusemos os pés, rico em material de reflexão para posteriormente relatar.

Assim, reforço em tom conclusivo o facto de uma paralisia criativa não ser, de todo, incurável nem eterna. Penso que como criadores devemos alienar-nos por vezes dos “ses” e das incertezas sobre qual será o resultado final e sobre como será recebido pela audiência, porque no fim do dia o real valor do que é criado fica nas mãos do criador (tema aberto a discussão). O resto são vislumbres. Bem, a ironia realmente enche-me neste momento, pois acabei por escrever um texto exatamente sobre a minha impossibilidade de escrever textos! Bonita incoerência!

 


José Miguel Pires

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